Some Portugese reviews - "DFTI"


Here are 6 nice Portugese reviews. Click on the picture of my CD on their website to read them there... related link is below, at the end of all this text!

Depois de uma auspiciosa estreia com Consequences, o pianista John Escreet consegue ir ainda mais além com este Don’t Fight The Inevitable, um disco fascinante de uma ponta a outra, onde o elevado saber no domínio técnico dos instrumentos com que se faz a música se junta a uma total entrega ao acto da criação e a uma liberdade suprema nos caminhos por onde esta pode enveredar.

Todas aquelas qualidades ficam claramente ilustradas logo na faixa de abertura do álbum, “Civilization on Trial”, uma meticulosa e inextricável composição que deixaria em apuros a maioria dos grandes nomes do jazz de hoje e de outros tempos. Sucedendo-se ao ambiente mais tranquilo da primeira secção do tema, os uníssonos de Binney e Akinmusire contornam com a maior das facilidades os angulosos e vertiginosos rodopios de um tema que desde logo nos deixa com a vontade de ouvir muito mais, de ouvir tudo o que um grupo desta qualidade possa ter para nos oferecer. Dada uma volta inteira ao tema, o trompetista solta um pungente grito no registo mais agudo que do seu instrumento se conseguiria extrair, ao qual o pianista faz um breve comentário de consolo, de onde se ergue a voz do mais criativo saxofonista da actualidade. Por meio do solo de Binney regressa Akinmusire com mais uns quantos gritos, soltos mas pertinentes, que vêm intensificar ainda mais a mensagem do saxofonista e de todo o grupo. A improvisação seguinte cabe a Escreet, que começa por martelar o piano com a mesma intensidade que o seu mestre Jason Moran. Mesmo quando da fornalha se soltam algumas labaredas que nos fazem pensar em Dave Burrell ou até mesmo em Cecil Taylor, nunca deixa de ser espantosa a precisão com que Escreet, sem nunca procurar soluções fáceis (para ele próprio ou para o ouvinte), arranca exactamente a música que quer das 88 teclas do seu piano.
Segue-se a faixa-título e um David Binney possuído pelo demónio, com o solo mais free que dele alguma vez se pôde ouvir, pelo menos em disco. E porque à tempestade se segue a bonança, surge a primeira oportunidade para Akinmusire se alongar na demonstração de uma mão cheia de razões para a elevada estima em que é tido por tantos dos seus colegas músicos. Akinmusire é um trompetista dotado de um som potentíssimo, de uma impressionante facilidade gillespiana no registo mais agudo e de uma fluidez de ideias melódicas a condizer. É um novo monstro do trompete e um músico ao qual passa a ser, principalmente depois da sua prestação neste álbum, impossível ficar indiferente.

Se um nome como “Soundscape” retrata da melhor maneira a paisagem musical criada pela electrónica de Binney e embelezada pelo piano do líder, não deixa de ser muito curiosa a fidelidade com que o título de vários outros temas como “Magical Chemical (For The Future)”, “Trouble And Activity” ou “Avaricious World” retrata o que em cada um deles se passa. E não poderia, em toda esta (hiper)actividade, omitir-se uma referência ao papel de Matt Brewer e de Nasheet Waits, duas presenças cada vez mais frequentes no melhor jazz que hoje se faz. O baterista, em particular, sempre com aquela dose de impura beleza que todo o jazz deveria ter, desempenha um papel fundamental no sucesso de muito do que aqui se passa, sendo a natural excepção o duo de Escreet e Binney numa belíssima balada da qual o saxofonista é co-autor.

“Charlie in the Parker” é o único não original do disco. Trata-se da faixa com que Muhal Richard Abrams abriu o álbum 1-OQA+19 (com uma formação que contava com Anthony Braxton e Henry Threadgill na linha da frente). Binney e Akinmusire afinam-lhe umas pontas, mas não lhe limam as arestas. Curiosamente, embora o tema provenha do álbum em que Abrams pela primeira vez se aventurou no sintetizador, Escreet mantém-me também aí fiel ao piano acústico, instrumento no qual começa a tornar-se um nome cada vez mais marcante, ainda que seja nas qualidades de compositor inegavelmente inovador e de excepcional organizador de talentos que este novíssimo talento mais ainda terá de dar que falar. O tema culmina com a voz de Charlie Parker a dizer «Most likely in another 25 or maybe 50 years some youngster will come along and take this talent and really do something with it, you know...» Face ao que aqui se ouve, não estaria o grande Bird coberto de razão? Seja como for, o mais certo é que, depois de Dual Identity (de Steve Lehman e Rudresh Mahanthappa, com Matt Brewer no contrabaixo) e de Aliso (álbum de David Binney no qual Escreet se senta em três faixas), aqui temos mais um álbum para o top 3 de 2010!

Paulo Barbosa


Este segundo disco do pianista britânico – a viver em Brooklyn desde 2006 – vem confirmar as expectativas que nele vinham sendo (justamente) depositadas desde a estreia, com Consequences, de 2008. Dotado instrumentista, John Escreet confirma-se sobretudo como compositor de interesse, revelando uma escrita elegante e alcançando um esmerado equilíbrio entre as partes escritas e as improvisações, tirando partido das especificidades de cada um dos músicos que o acompanha. O disco começa com “Civilization on Trial”, espelho dos dias turbulentos que a Humanidade enfrenta. Notáveis os jogos entre os sopros, de que se soltam escaldantes solos de David Binney e do próprio Escreet, apoiados (como será uma constante) na superlativa dupla rítmica composta por Matt Brewer e essa força da natureza que é Nasheet Waits (inultrapassáveis em “Trouble and Activity”). Na peça-título, ao pianismo vulcânico vem juntar-se mais um espantoso solo do saxofonista. A longa “Magical Chemical (For the Future)” começa solene, conhecendo depois súbitas mudanças de direcção, muito à custa dessa interligação dos sopros (bom solo de Ambrose Akinmusire). Curiosa é a leitura da peça do eterno experimentador Muhal Richard Abrams, “Charlie in the Parker”, com a voz do próprio Bird. “Gone but Not Forgotten” é uma pérola de delicadeza. Um disco com ingredientes de sobra para agradar a diferentes fatias do público jazzófilo. AB


John Escreet surge debaixo da figura tutelar de David Binney, mas eu creio que será justo atribuir-lhe igualmente a ascendência do Jazz mais irreverente e erudito da downtown nova-iorquina dos anos 90 do tipo de Mark Helias ou Formanek. Don't Fight the Inevitable denota um trabalho de escrita inspirado, onde a improvisação se integra de forma notável, que está a fazer de Escreet o objecto das atenções dos futuristas do Jazz, e com razão. Este será mesmo um dos trabalhos mais interessantes surgidos no campo de um Jazz que se diria culto, que apenas parece pecar ocasionalmente por excesso no doseamento da elaboração e no uso da electrónica que, mesmo se manipulada por Binney, surge quase sempre abstrusa e dispensável. O mesmo impetuoso Binney que protagoniza alguns dos momentos mais estimulantes do disco, a par do piano tayloriano de Escreet, mas que permite a pergunta se a música não seria outra sem o saxofone. Mas composições como "Civilization On Trial" ou "Avaricious World", que deveriam ser estudadas como modelares pelos estudantes de composição, fazem do segundo disco de John Escreet, e mesmo apesar de alguma menor pertinência de alguns momentos, justificável creio, pela juventude, um dos discos de Jazz mais estimulantes do ano. John Escreet, fixem este nome. LS


Se há disco que melhor pode contrastar, sob todos os pontos de vista, com Suite... de Baptiste Trotignon (ver outro local deste site) é esta surpreendente e esmagadora segunda obra de um pianista inglês que desde há quatro/cinco anos assentou arraiais nos States e muito já fez e fará falar de si, tão radicalmente inovadora é a sua linguagem musical. Nada do que conhecíamos e conhecemos das tradições clássico-modernas (mainstream e free) do jazz fica de pé, nada resiste ao debitar consecutivo das nossas receitas para tentar explicar, mesmo, quão diferente é tratar, no jazz, conceitos sabiamente definidos há séculos, como melodia, harmonia, ritmo, articulação, som, timbre, eu sei lá que mais! Aqui tudo é colocado em causa e nem tudo (ou bastante pouco!) ainda conseguimos apreender, a não ser a mais rigorosa postura e seriedade! Encontrando parceiro à altura na parelha que já artilhou com esse outro louco visionário que é David Binney, sabe-se, pelas leituras que se podem fazer pela Net, das companhias com quem gosta de partilhar estrados e estúdios. E mesmo que não seja suficiente (ou infalível) a velha máxima “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”, certamente que saber com quem anda este maduro é meio passo andado para perceber aonde ele quer chegar. Aqui chega já bem longe – e de que maneira! – fazendo tábua rasa de tudo o que, mesmo ainda dentro do jazz experimental, já conseguimos digerir e interiorizar, como ouvintes. Mas esperem-lhe pela pancada! E, já agora, vão estando atentos ao rapazinho que toca trompete com ele, um tal Ambrose Akinmusire, de tez morena e alma acalorada, e que há dias parece ter feito estragos no Jazz Standard, durante o CareFusion Jazz Festival, ao lado de Jason Moran e Mark Turner... E pur si muove! MJV


Novos músicos, novo estilo. Como já antes escrevi, esta é a música que transporta em si todos os conceitos do seu grande mentor, David Binney. Nesta sessão o líder é o pianista inglês residente em Nova Iorque, John Escreet, mas as sementes dum jazz muito para além dos limites do bebop estão lá. Bons desenvolvimentos temáticos, uma grande capacidade dos instrumentistas e um modo colectivo da praticar o som, que confirmam instrumentistas de talento. O que em verdade me preocupa é a abordagem intelectual da música que transmite uma certa frieza, não há nada daquela parte visceral que equilibra bem com o resto. Os músicos são magníficos, está lá o grande Nasheet Waits a agitar as águas, Escreet é um pianista capaz das linhas mais prementes ou mais líricas, como em "Gone but not Forgotten", Ambrose Akinmusire tem grandes momentos como em “Trouble and Activity", David Binney pode ser muitas vezes interessante. Todavia, falta qualquer coisa, este quarteto está a praticar, a tentar, uma música de impacto que não atinge, falta-lhe emoção e coração. Pode ser que tenhamos que esperar, mas admito poder estar enganado, este pode ser o jazz do futuro como muitos outros que eu não consigo digerir. RVB


John Escreet é um pianista inglês residente em Nova Iorque e Don’t Fight The Inevitable é a obra que se segue ao seu CD de apresentação Consequences. A associação de Escreet a David Binney, cada vez mais uma figura emblemática e activa do jazz moderno nova-iorquino, tem-se vindo a revelar ser das mais frutuosas e interessantes na música daí resultante. Em Don’t Fight The Inevitable, é evidente a intensidade deste jazz integrador dos movimentos pós-hard bop, dos ritmos urbanos da pop progressiva e da música improvisada. Escreet parece fortemente influenciado por Jason Moran, e a sua técnica pianística revela um grande virtuosismo e capacidade de resposta às diversas situações colocadas pelos extraordinários músicos que o acompanham. Os solos de Binney e do também ascendente Ambrose Akinmusire no trompete são desafios constantes ao acompanhamento de Escreet. O jazz que se ouve é, quase sempre, excitante com movimentos em crescendo de intensidade alternando com momentos de descompressão numa grande dinâmica e em que a secção rítmica com um Nasheet Waits em ritmo muito elevado chega a limites de intensidade. Para além do piano fortemente percutido em solos que cobrem todo o teclado, Escreet sabe também integrar alguma electrónica na criação de ambientes sonoros menos convencionais. Com Don’t Fight The Inevitable, John Escreet confirma todas as suas credenciais de nova estrela em emergência no panorama do piano-jazz além de se afirmar um excelente e criativo músico. RD